Violência obstétrica: por que tantas mulheres acreditam que precisam ser “boazinhas” durante o parto?

Ouvi essa frase recentemente em um grupo de gestantes, “Eu só espero ser boazinha durante o parto, porque se eu não for, sei lá como a equipe vai me tratar.”

Eu havia proposto uma reflexão simples: quais são seus desejos para o parto? O que você gostaria que acontecesse? O que é importante para você? A resposta veio quase imediatamente.

E ela revela algo muito maior do que um medo individual, ela revela uma realidade compartilhada por muitas mulheres: a sensação de que, durante o parto, o respeito precisa ser conquistado.

Mas por que tantas gestantes sentem isso?

Quando o respeito parece depender do comportamento da mulher

Em teoria, toda mulher deveria entrar em uma maternidade sabendo que será tratada com dignidade, independentemente de estar calma, assustada, chorando, questionando ou expressando dor.

Na prática, muitas entram preocupadas em não incomodar, tentam ser colaborativas o tempo todo.

Evitam fazer perguntas, escondem seus medos, aceitam procedimentos sem compreender completamente o motivo. Essa dinâmica não surge do nada.

Ela é consequência de décadas de um modelo de assistência que colocou os profissionais como protagonistas e as mulheres em uma posição passiva.

O que é violência obstétrica?

A violência obstétrica não se limita a agressões verbais ou procedimentos realizados sem consentimento.

Ela também pode ocorrer quando:

  • A mulher não recebe informações adequadas.
  • Suas dúvidas são desconsideradas.
  • Suas escolhas são ignoradas.
  • Procedimentos são realizados sem consentimento esclarecido.
  • Há humilhações, ironias ou ameaças.
  • A dor da mulher é minimizada.
  • Ela é excluída das decisões sobre seu próprio corpo.

Pesquisas brasileiras apontam que aproximadamente uma em cada quatro mulheres relata ter sofrido algum tipo de violência durante o parto. Quando analisamos intervenções desnecessárias, falhas na comunicação e ausência de consentimento informado, os números podem ser ainda maiores.

O modelo biomédico e a perda do protagonismo feminino

Durante muito tempo, profissionais e instituições organizaram a assistência obstétrica a partir do modelo biomédico.

Nesse modelo, profissionais enxergam a gravidez e o parto principalmente pela lente do risco, por isso, monitoram, controlam e intervêm com frequência.

Os profissionais costumam concentrar as decisões, os protocolos costumam ser padronizados, e a mulher frequentemente ocupa uma posição secundária.

Esse modelo trouxe avanços importantes para a redução da mortalidade materna e neonatal.

Mas, quando aplicado de forma excessivamente intervencionista, pode acabar reduzindo a autonomia da mulher e transformando um processo fisiológico em uma experiência marcada pelo controle.

O modelo biopsicossocial: uma mudança de perspectiva

Nas últimas décadas, tem crescido a defesa de um modelo biopsicossocial de atenção à gestação e ao parto.

Essa abordagem reconhece que gravidez e nascimento não envolvem apenas aspectos biológicos. Envolvem também emoções, relações, história de vida, cultura, expectativas e contexto social.

Nesse modelo:

  • A equipe coloca a mulher no centro das decisões.
  • Os profissionais buscam o consentimento antes de qualquer procedimento.
  • A mulher participa ativamente das escolhas.
  • A equipe prioriza uma comunicação clara e respeitosa.
  • O consentimento informado é indispensável.
  • A promoção da saúde é tão importante quanto a prevenção da doença.
  • O parto é compreendido como um evento fisiológico e familiar, não apenas médico.

A pergunta deixa de ser “o que vamos fazer com essa mulher?” e passa a ser “como podemos cuidar dessa mulher?”.

As consequências emocionais da violência obstétrica

Muitas pessoas acreditam que o impacto da violência obstétrica termina quando o bebê nasce. Não termina.

Quando uma mulher vive uma experiência traumática durante o parto, ela aumenta o risco de desenvolver:

  • Transtorno de estresse pós-traumático relacionado ao parto.
  • Depressão pós-parto.
  • Ansiedade.
  • Medo de futuras gestações.
  • Dificuldades no vínculo inicial com o bebê.
  • Sentimentos de culpa, fracasso e impotência.

O parto não é apenas um evento físico, ele também é uma experiência emocional que pode deixar marcas duradouras.

Nenhuma mulher deveria precisar ser “boazinha”

Talvez o aspecto mais doloroso daquela frase seja que ela revela uma inversão de papéis. A mulher chega ao parto preocupada em cuidar das emoções e reações da equipe.

Quando deveria ser ela a receber cuidado.

Nenhuma mulher deveria sentir que precisa merecer respeito, deveria acreditar que o tratamento recebido depende da sua capacidade de agradar profissionais.

O respeito não é uma recompensa. É um direito.

E um cuidado verdadeiramente humanizado começa quando a mulher pode entrar em trabalho de parto sabendo que será ouvida, acolhida e respeitada exatamente como é: forte, vulnerável, assustada, confiante ou tudo isso ao mesmo tempo.

Share it :

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *